segunda-feira, 1 de junho de 2015

Ecos da Espanha e o Gallocantante






Resumindo: de volta para casa, vindo da Fenavin, a maior feira espanhola de vinhos, onde fui convidado a falar sobre o mercado de vinhos no Brasil, e ainda pensando nas conversas que tive na Espanha.
Até 40 anos atrás o vinho espanhol era praticamente desconhecido fora de suas fronteiras, com poucas e muito honrosas exceções, como os grandes Riojas e os Vega Sicilia. (Brincam que se o Vega Sicilia não é o melhor vinho que existe é difícil algum vinho ser melhor do que ele.)
De lá para cá, no entanto, a Espanha deixou de produzir vinhos apenas para consumo interno. E o foco na exportação naturalmente gera uma preocupação nova e crescente com a qualidade.
Combinando suas quase 100 variedades de uvas nativas com modernas pesquisas e estudos sobre vitivinicultura e um profundo conhecimento dos seus terroirs, os espanhois vem melhorando a imagem de seus vinhos...e a autoestima dos produtores locais.



De uma maneira muito simples podemos dividir os vinhos espanhóis em dois grupos.
Os clássicos: vinhos vinificados com técnicas antigas, em geral envelhecidos em toneis de carvalho por longos períodos, alguns ultrapassando 12 anos. Os grandes Riojas, como Rioja Alta, Bodegas Franco-Españolas, Bodegas Beronia, e os tradicionais Ribeira del Duero, entre eles o ilustre Vega Sicilia, fazem parte dessa linhagem ancestral.
Os modernos: uma nova geração de vinhos que começou a aparecer a partir dos anos 80. Mais concentrados, eles passam menos tempo em madeira, normalmente em barris novos, privilegiam a fruta e a expressão do terroir. Muitos são vinhos sem mistura, produzidos com uvas de um único vinhedo, cujo nome vai no rótulo, os chamados single vineyards. Vinhos de regiões como Toro, Priorat, Navarra, Bierzo e La Mancha estão no grupo dos ‘modernos’.
O fenômeno vai contagiando até mesmo regiões tradicionais como Rioja e Ribeira del Duero que também começam a fazer experiências com essas novas formas de produção.

É o caso da Bodega Contador, de Benjamin Romeo, que desde 1995 vem produzindo vinhos em San Vicente de la Sonsierra, na Rioja. 

Almocei com Benjamin Romeo mês passado, quando ele veio a São Paulo. Impressiona seu comprometimento com a excelência! Me diz que toma conta pessoalmente de todo o processo desde como as uvas são plantadas e colhidas até a escolha dos toneis de madeira que serão usados, passando pela seleção cuidadosa das...rolhas!  
As colheitas de 2004 e de 2005 de seu vinho top, Contador, ganharam 100 pontos de Robert Parker, um feito e tanto para qualquer espanhol, ainda mais se a gente imaginar que ambos foram desenvolvidos numa garagem que Romeu emprestou do seu pai. Isso, claro, antes de ganhar reconhecimento internacional e construir uma vinícola de arquitetura moderna, esparramada entre os vinhedos. 

Além do Contador, a bodega produz outros rótulos, com destaque para o Carmen Hilera Grand Reserva. Esse último, meu favorito, é especial porque combina as técnicas modernas com as regras tradicionais da denominação da Rioja. 

O perfeccionismo e a seriedade, no entanto, vem junto com um bom humor quase irreverente. Benjamin Romeo faz um branco, com uvas Garnacha Branca, Malvasía e Viura , e que originalmente chamava-se Gallocantante, ou ‘galo que canta’, em espanhol. Um dia recebe uma notificação que a gigante vinícola norte-americana, Gallo, estava movendo um processo contra ele pelo uso do nome. Benjamim não teve dúvida, respondeu que podiam cancelar o processo porque não usaria mais o nome Gallocantante. E mudou o rótulo para Qué bonito que cacareaba. Quase um ‘quem ri por último’, até porque o '‘galo' ‘de Romeo é considerado um excelente branco da Rioja, e, entre nós, muito melhor que os brancos do Dr. Gallo. Genial !!

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